Sonic Youth: a música da banda que fala sobre assédio sexual no ambiente de trabalho
by Brunelson
há 15 horas
“Mulheres são anarquistas naturais" - Kim Gordon.
A crítica de Kim Gordon, vocalista/baixista do SONIC YOUTH, à irreverência da indústria musical em relação ao tratamento que as mulheres sofrem, tem sido frequentemente percebida como o elemento definidor de sua persona “punk”.
Na realidade, o desdém vocal de Gordon por como essas questões eram persistentemente rotuladas, lançou uma áurea um tanto pesada sobre o SONIC YOUTH. Como elementos básicos da cena underground, o grupo abordou questões sociais que considerava inaceitáveis, como misoginia e assédio sexual, mas a mídia em geral frequentemente os rotulavam somente como uma estampa punk, desviando os olhares do que eles realmente pregavam.
Para alguém como Gordon, que vinha de uma sociedade e educação machista, era comum aceitar as coisas somente pelo seu valor financeiro e moral, para assumir que era apenas a maneira como o mundo funcionava. Não parecia certo para ela ver, por exemplo, o sexismo entrelaçado no tecido da linguagem cotidiana, mas a questão estava lá e flagrante para todos verem como uma verdade feia surgindo, enquanto todos os outros olhavam para o lado como se não fosse nada de mais.
Mas Gordon não era de ignorar essas coisas e outras, sendo motivada pelo SONIC YOUTH a recusar jogar junto com um sistema que ela não suportava.
O álbum "Dirty" do SONIC YOUTH (7º disco, 1992), viu a banda entregar uma coleção de músicas que se aprofundavam em vários assuntos culturais, um dos quais abordava o assassinato não resolvido de um amigo do grupo e o impacto duradouro que sua morte teve no resto da banda, vide as canções "100%" e "JC".
Em outra música lançada nesse álbum, "Swimsuit Issue", ela abordou o assunto do assédio sexual no local de trabalho, inspirado por um caso real que se desenrolava com um funcionário da sua própria gravadora na época, a Geffen Records. Pegando a história desse funcionário desonrado e infundindo a canção com uma narrativa mais ampla sobre um problema muito real, a música "Swimsuit Issue" foi a tentativa de Gordon de despojar a indústria da música do que ela vale e forçá-la a lidar com os ambientes tóxicos que ela perpetua.
Na época, o SONIC YOUTH formou a base da lente crítica de Gordon enquanto ela navegava por todas as maneiras pelas quais as mulheres estavam sendo tratadas como objetos e abusadas fisicamente e psicologicamente, geralmente ocorrendo em ambientes corporativos (no próprio local de trabalho).
“Foi a ponta do iceberg”, Gordon disse uma vez em entrevista para o jornal britânico The Guardian. “Há uma parede invisível de homens sem rosto que eu tenho que escalar como se estivesse em uma missão”.
Claro, suas ideias foram recebidas com apreensão, principalmente considerando o fato de que ela estaria criticando abertamente um (agora) ex-funcionário da sua própria gravadora e arriscando manchar a reputação da banda que já estava na mira dos seus grandes executivos, mas Gordon sabia que trabalhos sinistros formavam a base de muitas instituições, e que isso tinha que parar e não iria lhe deixar quieta.
“Não toque nos meus seios / Estou apenas trabalhando na minha mesa / Não me coloque à prova / Estou apenas fazendo o meu melhor”, canta Gordon na canção "Swimsuit Issue". Quando Gordon escreveu essas letras, era algo que ela se sentia pressionada a abordar. E em contrapartida, a Geffen Records parecia querer desesperadamente que toda sua narrativa se dissolvesse - coisa que nunca aconteceu.
“Foi constrangedor porque tínhamos assinado com a Geffen Records recentemente em 1990, onde esse cara que era da relações públicas da gravadora foi exposto como assediador sexual de sua secretária... Não sei, acho que a gravadora queria que essa história desaparecesse”, havia dito Gordon. Constantemente sentindo essas atmosferas hediondas transbordarem e depois se dissolverem como se nada tivesse acontecido, o apelo de Gordon também queria representar uma lição para os seres humanos atuais e das próximas gerações.
Gordon finalizou: “A indústria da música é tão... O sexismo está tão arraigado nela, sabe? Em todos os níveis, o que é inacreditável. Como você desmonta tudo isso?". Em suma, um ciclo perturbador precisa ser rompido, mas em última análise, cabe também para aqueles que viram o rosto para o outro lado como se não tivesse visto nada - fazendo parte de tal ambiente corporativo ou não (aqui, vale para o racismo também).
Em uma época de ouro na história do rock, com o grunge e rock alternativo reinando sobre a Terra e se fazendo mostrar uma nova filosofia de vida em suas letras, tudo foi imensamente confrontacional e íntegro, expondo questões sociais e patologias humanas que antes não eram vistas em músicas rock.
Bình luận